sexta-feira, 12 de abril de 2019

Civilização latina ou judaico-cristã?

Artigo escrito pelo excelente historiador argentino, Rúben Calderón Bouchet, na Revista Gladius, ano 1, nº 1 (1984)


Rúben Calderón Bouchet (1918-2012)


Por quê latina?

Tornou-se moda entre os cristãos, ademais insuspeitáveis, referir-se à nossa religião com a denominação de judaico-cristã. Como em geral o uso de tais locuções tem o caráter de um slogan, pareceu-me muito conveniente fazer alguns apontamentos que lancem um pouco de luz no terreno, muito confuso, onde aparecem os termos religião, civilização, judaísmo, latinidade e cristianismo.

Foi um sociólogo polonês, Félix Komeczny, o primeiro a propor o adjetivo latina para denotar, de um modo mais preciso, o verdadeiro caráter da nossa civilização. Opunha-se à designação demasiado topográfica de Ocidente por muitas razões: A primeira de todas era porque tal término caracterizava somente um grupo das nações que pertenceram a essa civilização mas que, indubitavelmente, não foram as únicas. Ficavam excluídos dela povos como Polônia, Hungria, Romênia, etc., não menos comprometidos que os outros na história comum e, em muitos momentos dela, denodados defensores, até o oriente, do patrimônio cultural e religioso que constitui o fundamento da civilização latina. 

Ademais, uma noção puramente toponímica não é denotativa o bastante para prevalecer sobre outras, muito mais aptas para marcar o notável viés espiritual. Poderia se chamar simplesmente cristã, mas como de fato Bizâncio e sua herdeira, Rússia, também são cristãos, o valor demonstrativo do epíteto perderia sua força. Por outro lado, o que caracterizou o desenvolvimento de nossa civilização a todo momento foi a influência de Roma e do latim como veículo imprescindível na formação da nossa inteligência.

O idioma latino, cunhado com justeza nas exigências da expressão jurídica, tem o privilégio de se adequar com precisão ao intercâmbio das ideias mais universais. É, provavelmente, a melhor língua feita para dizer tudo aquilo que os homens necessitam dizer quando se tratam de assuntos de interesse geral. Léxico de juristas, se converteu facilmente em veículo idôneo da filosofia grega e de tudo o que havia de radicalmente essencial nos helênicos. Ao ser expressado em fórmulas latinas, o pensamento grego ganhou em concisão e segurança denotativa o que perdeu, talvez, em riqueza expressiva. 

Língua douta como o grego e cheia de inspiração numinosa como o hebraico, teve a vantagem de estar mais desligada de seus compromissos vernáculos e de haver sofrido, na prática de um direito quase ecumênico, essa purificação semântica que permite dizer o que todas as inteligências podem entender, sem os meio-tons ou os equívocos obscuros de línguas demasiadamente ligadas aos usos e aos costumes de um determinado povo.

A Igreja Católica a adotou como língua de sua liturgia e de sua teologia universal e terminou preferindo-a ao grego, não tanto por uma razão puramente política, como pelas peculiaridades específicas do seu gênio linguístico. O grego, por ser mais rico e matizado que o latim em suas expressões, tem sutilezas idiomáticas que dão pé a muitos equívocos e, como consequência, a discussões intermináveis sobre a verdadeira acepção de uma palavra. O latim, ainda que não evite totalmente essa possibilidade, trata de evitá-la. Está na sua índole o uso das definições irrevogáveis que parecem escritas para desafiar as injúrias do tempo. Nenhuma tradução da Bíblia tem, como aquela da Vulgata, a firmeza na versão do Magistério Eclesiástico. Todos os avanços filológicos de que se jacta nossa época, em seguida às famosas traduções de Erasmo, não fizeram mais que debilitar a exegese tradicional sem nenhum benefício para a fé.

A Igreja, na medida em que rompeu sua conexão original com a Sinagoga, adaptou seu magistério às exigências da civilização greco-latina e se separou de tudo aquilo que, na tradição israelita, pudesse ter de temperamentalmente hebraico.

Em primeiro lugar, dessa sacralização que receberam todas as atividades da civilização no mundo judeu e, em segundo lugar, das minuciosas prescrições do seu esmagador legalismo. É muito lógico supor que essa transferência de civilizações não se fez sem sobressaltos, nem retrocessos. As comunidades que posteriormente foram chamadas "judaico-cristãs" eram, no alvorecer do cristianismo, muito numerosas e gozavam de um grande prestígio religioso para que sua presença não se fizesse sentir com todo o peso de um judaísmo vingativo: exaltação de um messianismo triunfal, espera vingativa do Dia da Ira e um certo gosto catastrófico pela desaparição de Roma.

Não obstante a persistência dessa tradição, a atitude de Pedro e de Paulo ao tomar Roma como centro do seu apostolado foi, desde o começo, favorável a um entendimento profundo com as expressões mais notáveis da civilização helênico-romana. 

Paulo não perdeu nunca a oportunidade de fazer valer sua condição de cidadão romano para defender sua liberdade contra a ameaça dos seus antigos companheiros soldados. Os seguidores de Pedro não apenas oraram pela prosperidade do Império, como também começaram a levar a sério a possibilidade de converter o próprio imperador ao cristianismo. Nada digo sobre as primeiras expressões de arte cristã, pois todo mundo sabe que, embora nada originais, elas tomaram por razão o fornecido pela tradição estética da Grécia e de Roma. Basta ler o prólogo do Evangelho de São João para compreender que o Apóstolo do Verbo tentou uma interpretação teológica de Cristo que emprestava do helenismo uma de suas ideias mais fundamentais, a do Logos, e a introduzia com audácia singular para designar a posição de Cristo nas processões intradivinas. 

Política, arte, ciência, economia e língua vinham agora do mundo gentio greco-latino. De Israel se conservava a Escritura e, com ela, o conteúdo da tradição revelada, mas examinado à luz dos princípios impostos pelo mistério do Verbo Encarnado.

Os usos e os costumes propriamente hebreus, de temperamento hebreu, não puderam resistir muito tempo em comparação com aqueles provenientes do mundo helenístico. Somente restou, talvez como modalidade literária, uma certa influência dos escritores do Antigo Testamento.

O encontro de gregos e cristãos foi decisivo para o futuro de uma assembleia religiosa cuja catolicidade dependia dessa união. Escreve Werner Jaeger que o autor dos Atos dos Apóstolos viu isso com toda clareza quando narrou a visita de Paulo a Atenas, centro cultural e intelectual da Grécia clássica e símbolo de sua tradição histórica. "Paulo pregou neste venerável foro, o Areópago, perante uma audiência de filósofos estoicos e epicuristas, acerca do deus desconhecido. Citou o verso de um poeta grego: 'porque somos também da sua linhagem', e empregou argumentos amplamente estoicos, calculados para convencer mentes educadas na filosofia. Se essa cena inesquecível foi história ou inventada para dramatizar a situação nos começos da luta entre o cristianismo e o mundo clássico, não interessa muito. Ela revela claramente como o autor dos Atos entendia o problema. A discussão entre um e outro mundo requeria um fundamento comum; de outro modo, não seria possível. Paulo elegeu a tradição filosófica helênica que era o aspecto mais representativo daquilo que restava de Grécia nesse tempo" (Jaeger, W., Early Christianity and Greek Paideia, Harvard University Press, Cambridge, 1961, p. 11).

Se desdenhamos a existência de uma revelação feita aos homens por Deus, primeiro através dos profetas hebreus e mais tarde na pessoa mesma de Cristo como encarnação da Segunda Pessoa da Trindade, todo o conteúdo da religião é o produto, ou a criação, de uma mentalidade histórica determinada. Pode-se falar, então, do monoteísmo judaico-cristão como efeito de um psiquismo particular. Nesse caso, decididamente judeu, porque Cristo seria apenas mais um expoente da espiritualidade israelita. 

Os próprios judeus resistem a essa interpretação e, desde que aceitem como explicação final desse mistério histórico as categorias nocionais do racionalismo moderno, verão no cristianismo os resultados de um esforço feito desde a cultura greco-latina, para helenizar as tradições judias. O dilema é irredutível, desde que não se renuncie a considerá-lo à luz da ideologia imanentista que faz da religião mais uma atividade do espírito humano.

A designação judaico-cristã

Se se considera o "traditum" revelado como resultado de uma atividade cultural humana, resultará absolutamente impossível separar o que vem de Deus de tudo quanto põem os homens por sua conta e razão. Se a consciência, historicamente condicionada, é o "nisus" de onde emana a voz da Eternidade, jamais poderemos distinguir a voz de Deus das vozes dos homens. Então podem ter razão tanto Alain de Benoist como seu adversário Bernard Lévy quando, sustentando pontos contrários, condenam a mistura do monoteísmo judeu com o pensamento grego. Porque se, efetivamente, são criações de espiritualidades distintas, o híbrido resultará sempre repugnante para um e outro e o resultado uma mistura inaceitável.

Ninguém pode negar que o povo de Israel, como qualquer outro, teve usos e costumes que dependiam naturalmente de seu temperamento, de suas virtudes, de seus vícios, das vicissitudes da sua história, de sua ignorância e de seus conhecimentos. Separar isso dos conteúdos revelados tem sido a tarefa do Magistério da Igreja. Tarefa lenta e especialmente difícil, porque exige duas coisas: inspiração sobrenatural para não errar na exata apreciação dos dogmas de fé, e separação, distância do temperamento que impôs seus movimentos espontâneos aos redatores da Bíblia.

O Símbolo de Niceia é uma condensação particularmente feliz desse discernimento e prepara, no início do século IV, a formulação de uma Teologia Dogmática que pouco terá que adicionar a seu conteúdo essencial, no transcurso dos séculos.

Esse esforço exegético e seu conteúdo dogmático nada deve à "forma mentis" israelita, mais inclinada às longas dissertações em torno dos artigos da fé, da interpretação da lei ou das visões apocalípticas, mas a uma clara precisão doutrinária onde aparece, com toda a sua força, o gosto greco-romano pela clareza e pela conclusão.

A expressão judaico-cristã tem um certo sentido quando se aplica às primeiras comunidades israelitas convertidas ao cristianismo nos primeiros passos da Igreja Católica. Não obstante, seria necessário examinar muito bem se a designação judeu, para identificar o israelita, não se refere especialmente aos membros desse povo que resistiram com mais força à aceitação da mensagem messiânica do Cristo.

O Evangelho, quando fala de um israelita, nunca o faz com um sentido pejorativo, pelo contrário, a designação geralmente é elogiosa. Disse Jesus quando viu Natanael chegando: "Ecce vere Israelita, in quo dolo non est" (Jo. 1, 47).

No capítulo dez do seu Evangelho, João se refere aos judeus como aqueles que buscam a perdição de Cristo e que, sem crer nas suas palavras, andam ansiosos para vê-lo incorrer em uma contradição que o deixe em maus lençóis com as autoridades:

"Os judeus rodearam-no e perguntaram-lhe: Até quando nos deixarás na incerteza? Se tu és o Cristo, dize-nos claramente."

"Jesus respondeu-lhes : Eu vo-lo digo, mas não credes. As obras que faço em nome de meu Pai, estas dão testemunho de mim."

"Entretanto, não credes, porque não sois das minhas ovelhas" (Jo. 10, 24-26)

De onde nasce esse empenho para colocá-los no redil de Cristo? Não culparei os judeus, porque com toda clareza expressaram, sempre que puderam, sua repugnância por essa mescla absurda. Na ocasião da designação do novo Arcebispo de Paris, que se declarou judaico-cristão, a comunidade israelita da França fez chegar sua nota de protesto por uma confusão que não a honrava.

São Paulo, na sua Epístola aos Gálatas, se refere ao seu antigo pertencimento ao judaísmo como a uma situação que sua conversão superou, abandonando-a a um ressabio dos seus antigos erros frente ao fato cristão. Afirma com clareza o caráter sobrenatural do seu evangelho quando assegura que "Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo. Certamente ouvistes falar de como outrora eu vivia no judaísmo, com que excesso perseguia a Igreja de Deus e a assolava; avantajava-me no judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais" (Gal. 1, 11-14).

Na última de suas Epístolas se dirige aos hebreus, não aos judeus, ainda que isso não signifique que o termo judeu tivesse sempre uma acepção oposta a Cristo. Na Carta aos Romanos, fala do judeu como aquele que, antes de todos, recebeu a Revelação e mantém essa significação ao longo de toda a epístola.

O núcleo da religião está constituído pela Revelação e essa, em sentido estrito, não é judia, ainda que o povo hebreu houvesse sido elegido por Deus para sua recepção. Chamar os conteúdos revelados por Jesus de judaico-cristãos teria sentido se não fossem revelados, mas sim o fruto da espiritualidade hebreia, como foram suas instituições, seus cânticos, suas visões e sua história nacional. Se aceitássemos como essencialmente demonstrativa essa expressão, o cristianismo seria judeu-grego-latino, porque teria surgido da atividade cultural desses três povos ou, senão, para sermos mais simples, poderíamos chamá-lo propriamente judeu, dado que Cristo não seria outra coisa que uma expressão cultural de Israel.

Sabemos muito bem que tais erros, quando se reiteram com assiduidade, nunca são gratuitos. É uma maneira de aproximar-se do judaísmo com todas as características de um oferecimento pouco honrável. O israelita declinou em judeu na mesma medida que acentuou sua oposição ao cristianismo e, como esta é uma opção livre, aceitamos ser uma e outra coisa com a plena responsabilidade das suas consequências naturais e sobrenaturais. Os termos judeu e cristão não são compatíveis, supõem decisões religiosas opostas e se deram, primeiramente, no seio do povo hebreu e, pela projeção de uma e outra espiritualidade, se transladaram ao mundo dos gentios.

A civilização hebreia

A "Torá", essa minuciosa legislação que traduz a vontade de submeter todas as atividades da vida humana a um estrito controle religioso, é a expressão mais acabada do espírito sagrado da civilização hebreia. Nada escapa ao seu impecável formalismo: a ciência, a política, a arte, a economia e até as mais íntimas relações do homem com a sua realidade corporal estiveram severamente regulamentadas pela lei. Ela é o espírito feito carne, se se quer vê-la na perspectiva de uma prefiguração, mas um espírito fixado na férula da prescrição inamovível e a que o temperamento judeu concluiu articulando a mesma com minuciosidade maníaca, até sufocar o sopro da inspiração profética.

O verdadeiro judeu era o homem que sabia sempre o que tinha de fazer, porque assim dispunham as normas irrevogáveis. Quando entre eles surgia o homem inspirado pelo Espírito de Deus e agitava sua consciência, perturbava-se como diante de um feito escandaloso e tratava-se de calar sua voz para retornar à segurança de seus firmes parâmetros legais.

A ciência hebreia foi fundamentalmente jurídica, e os homens que melhor representaram essa sabedoria foram chamados "Doutores da Lei". Mais que legisladores, foram os exegetas prolixos das fórmulas tradicionais, cuja frente era o código da aliança proposta por Yaveh. O Deuteronomio 28, 69 afirma que "Eis as palavras da aliança que o Senhor ordenou a Moisés que fizesse com os israelitas na terra de Moab, além daquela que tinha feito com ele em Horeb."

Como essas regras, leis e preceitos provêm diretamente de Deus, o compromisso de cumpri-las não tem escapatória. Suponhamos, como conjectura historicamente válida, que muitos desses mandatos estão vinculados com o temperamento particular dos judeus e têm por missão apartá-los de certas tentações às quais eram sensíveis pois, embora pertençam ao corpo total da Sagrada Escritura, sua vigência deixou de ter a força que teve em seu momento. Claramente é lei religiosa e, como está essencialmente destinada a defender a aliança imposta pelo Senhor, as faltas contra Deus são mais vigorosamente castigadas do que aquelas que atentam contra a santidade do povo eleito.

O ensino da lei foi confiado ao sacerdote e, por seu intermédio, à comunidade que devia ser instruída nela, tanto para o comportamento do culto como em todos os aspectos práticos contemplados pela tradição.

Politicamente, Israel foi uma teocracia governada diretamente por Deus através do caudilho profeta. Quando os judeus pediram um rei "para ser como as outras nações", fizeram-no com segurança de que esse rei seria confirmado pela decisão de Yaveh e que governaria em seu nome. Deus escolheu a Saul, e esse exerceu seus carismas como chefe militar da nação hebreia.

A sucessão de Saul por Davi é narrada como um acontecimento diretamente atribuído à intervenção divina. Apenas com a separação dos reinos de Israel e de Judá se dá, neste último, uma forma política que escapa, em alguma medida, ao princípio carismático da teocracia israelita. Em contrapartida, Israel manteve com vigor a vigência da inspiração divina na designação do rei.

Como escrevia Roger de Vaux em suas Instituciones del Antiguo Testamento, não se pode falar em uma concepção israelita de Estado. Israel é o povo de Yaveh e não há outro Senhor que Ele. Israel é uma comunidade religiosa, sacrificial, e seu governo é uma teocracia.

Pode-se assegurar que a vida política de Israel esteve subordinada a critérios religiosos e o mesmo podermos afirmar de suas atividades econômicas que dependeram, durante os séculos em que se viveu sob a autoridade da aliança, de um modo de pensar religioso.

A comunidade santa tinha, para com os bens deste mundo, uma relação estritamente determinada pela lei. Só em sua relação com os estrangeiros podia o israelita afastar-se um pouco do estrito cumprimento das normas sagradas, e isso em sua decadência, quando o espírito de lucro havia entrado para sempre em seus costumes.

A ausência de uma plástica de grande envergadura não tira de Israel a existência de algumas formas muito elevadas e expressivas da arte sagrada, como são a poesia e o canto, as glórias mais puras de sua liturgia. Tinha razão São Bernardo, quando escrevia ao comentar os Salmos atribuídos a Salomão:

"Contempla agora a glória daquilo que se compara com o céu, tanto mais glorioso quanto mais divino. Não é sem justiça que toma por imagem a semelhança que extrai de sua origem. Pois, se por seu corpo que vem da terra é comparada às tendas de Cedar, por que por sua alma, que vem do céu, não se glorificará de ser semelhante a esse céu quando sua vida testemunha tal origem e certifica que pertence à pátria celeste?"

Para recapitular brevemente nossa opinião sobre a civilização hebreia, diremos que se trata de uma típica civilização sacral, porque todas as atividades do espírito são realizadas com critérios religiosos. Para encontrar algo semelhante, terá que esperar [aparecer] o Islã e sua total submissão às prescrições corânicas. Não podemos esquecer que o sincretismo religioso de Maomé foi um judaísmo feito à medida do espírito árabe e, na autorizada opinião de R. P. Théry, que escreveu sob o pseudônimo de Zacarias Hanna, o Corão é a obra de um rabino judeu impregnado até a medula do Antigo Testamento e do Talmud.

É muito difícil, diríamos impossível, encontrar uma civilização totalmente profana, mas, se examinamos os critérios predominantes nas diversas atividades culturais da latinidade, veremos que essas se movem em um âmbito de discreta liberdade. Isso permite uma discussão dos seus princípios à luz de razões que se fundam na essência de cada atividade e não em mandamentos religiosos.

Nunca se negou na cristandade que Israel foi o povo eleito por Deus para manter em seu seio a promessa messiânica. Por isso convém, quando se examinam as relações entre o povo de Israel a cristandade, distinguir com cuidado aquilo que pertence ao depósito divino e o que é obra do sangue, da sensibilidade e da inteligência do povo hebreu. Muitos judeus se tentam hoje com a adscrição de Nosso Senhor Jesus Cristo a isso que se chama "o espírito da cultura israelita". Não apenas judeus, também há cristãos, com títulos sagrados, que falam do Rabi Ieschoua de Nazareth, como se definitivamente sua mensagem ao povo de Israel não fora mais que um eco da sabedoria israelita.

Claro que uns e outros não apreciam com suficiente vigor o caráter revelado dessa mensagem, nem a clara vontade de Cristo de se colocar, em relação a Israel, acima de qualquer condicionamento nacional. Jesus obrou em todo momento como Deus feito homem e não como judeu. Reclamou para si uma autoridade e uma obediência que nenhum cidadão israelita poderia reclamar.

Sócrates, Platão, Aristóteles são gregos na medula de sua espiritualidade e temos que agradecer à Hélade a herança dos seus respectivos ensinamentos. Mas Cristo é Deus e, embora encarnado no seio de uma Virgem hebreia, nem seu espírito, nem suas palavras estão circunscritas às fronteiras do povo onde nasceu. Na relação vital Cristo-Israel, o último é o veículo ou, se quiser, o meio através do qual ressoa a eternidade do Verbo. Podemos agradecer a Israel o fato de haver nos transmitido a Bíblia, a língua, a voz e o tom de suas preces, o temperamento de seus profetas e o corpo imaculado da Virgem Santíssima. A revelação é assunto de Deus, Pai de todos os homens e, seja qual for o instrumento mediante o qual se fez conhecer, ela é sua obra e não obra dos homens.

Nossa interpretação não pode ser distinta daquela de Paulo, quando disse que os hebreus incorreram no erro de colocar suas obras sobre a fé: "Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque Cristo é o fim da Lei, para justificar todo aquele que crê." (Rom. 10, 3-4)

A Igreja se instaura sobre a civilização greco-latina

Assim como Deus elegeu o povo de Israel para que de seu seio nascesse o Messias, elegeu uma civilização para estabelecer sobre ela sua Igreja. De Israel exigiu a lealdade à Aliança e sobre os que foram fiéis edificou sua comunidade sacrificial. Da latinidade, tomaria as obras: o idioma, as ciências, o direito, a arte, os critérios políticos, econômicos e militares. Em uma palavra, tudo isso que a latinidade, assumindo o esforço genial dos gregos, plasmou com seu gênio peculiar.

Em que consiste esse gênio e por quê Deus pôs seus olhos em Roma para que fosse a cabeça de sua Igreja?

É um velho princípio de sabedoria teológica admitir que os desígnios da Providência são inescrutáveis. Não é fácil adivinhar os critérios que dirigem suas predileções, especialmente quando essas tendem a colocar em relevo a onipotência divina pela modéstia do seu instrumento conjunto. Mas também convém recordar que nem sempre prevalece esse ponto de vista providencial. Na eleição de Davi e de Paulo, na própria eleição de Maria Santíssima, apareceu outra classe de preferência, porque nenhum deles foi por si mesmo insignificante e o Senhor encontrou complacência em suas virtudes naturais para preenchê-los mais tarde com a força dos seus dons gratuitos.

Atreveria-me a afirmar que a importância política de Roma, seu gênio universal e essa disposição prática que mostrou no governo de outros povos não deixaram de entrar nos desígnios da Providência, nem careceram de forças para que Roma fosse eleita como instrumento da expansão universal da Igreja Católica.

Israel foi um povo sumamente particularista. Talvez pelo temperamento, ou quiçá porque a consciência de ter sido eleito por Deus entre todos os povos da terra, forjou em seu espírito a convicção de um destino único. De qualquer modo, se chegou a compreender a universalidade da mensagem profética, nunca teve a humildade de apagar sua própria personalidade na catolicidade de sua missão.

A influência da ideologia moderna no nosso modo de conceber a história nos fez bastante ineptos para perceber a presença da Divina Providência nas expressões religiosas dos povos. Isso que em tempos melhores parecera essencial, resulta hoje supremamente anti-histórico. O historiador, seguro do seu ofício, está disposto a baixar pudicamente os olhos cada vez que tropeça em algum indício misterioso nos presságios que tem um povo sobre seu próprio destino.

Atenas foi fundada no mesmo lugar onde existia um culto antigo a Palas Atena, deusa da inteligência que devia presidir o curso histórico dessa cidade, onde a razão humana alcançou seu ponto mais alto. Roma se formou sob a proteção de três divindades: Júpiter, Marte e Quirino, a lei, a guerra e o governo. Por pouco que creiamos na influência que essas expressões da divindade puderam ter no destino dessa cidade, não deixa de chamar a atenção a confirmação plena e cabal do que pôde ser, nos seus inícios, um obscuro pressentimento. Não falamos da formação de Israel ou da cristandade, porque se derramou tanta tinta para ocultar os desígnios luminosos da Providência que todo esse esforço de ocultação põe ainda mais em evidência o selo sobrenatural de suas origens.

Os antigos nunca duvidaram de que a melhor maneira de escrever a história de um povo era através da poesia épica. O poeta não só tinha olhos para os acontecimentos, mas também sabia examinar detalhadamente, com penetração religiosa, os sinais do tempo. Quando Virgílio descobriu a Idade de Ouro que traria como consequência a paz de Augusto, não fazia simplesmente o trabalho de um "prospectivista" moderno que sopesa, com certa destreza política, as consequências de um bom tratado de paz. Muitos dados que hoje são a especialidade do charlatão agiam na mente do poeta e conjugavam em seus vaticínios uma constelação de elementos misteriosos. Os astrólogos haviam visto um cometa pouco depois da morte de César e descobriram estranhas coincidências entre a paz de Brindisi e a aparição da constelação da Virgem, que foi a ocasião para que Virgílio escrevesse sua IVª bucólica.

Na Eneida VI, 851 e ss., confirma: "Que os outros povos, como os gregos, deem vida ao mármore e ao bronze, convertendo-os em figuras, e estudem o curso dos astros. Tu, romano, recorda que deves governar os povos e fazer durar a paz, perdoar os dóceis e abater os soberbos".

A missão era essa, e a grandeza de Roma respondeu com êxito à sua vocação profunda, criando no terreno político-cultural as condições desse tempo propício que o Novo Testamento chama com o termo grego "Kairos" para distingui-lo do tempo comum da nossa cronologia habitual. O "Kairos" foi o momento adequado para a chegada de Cristo, o tempo maduro que se realizava, zodiacalmente, com a constelação da Virgem.

As predições proféticas, os vaticínios virgilianos e a conjugação das estrelas se unem estrondosamente para anunciar a nova idade. Mas essa harmonia histórico-cósmica, em vez de nos levar a nos aprofundarmos no valor sacramental do universo, enche-nos de tristeza, como se tivéssemos nascido não para compreender, mas somente para combater a profundidade do segredo divino.

Roma foi erigida por inspiração do Espírito Santo, e porque sua eleição supunha a adoção do instrumento apto para expandir a fé e conservá-la no idioma mais adequado por sua essencialidade e sua precisão enunciativa. Essas são as virtudes que permitiram a permanência das verdades contidas no traditum e a possibilidade de que fossem claramente explicadas a todas as inteligências.

Uma das piores tentações que ameaçam o cristão de hoje é renunciar à férula romana para substituí-la por um angelismo de um Evangelho sem fundamento civilizador. Nestes tempos nasceu a ideia peregrina de renunciar às categorias intelectuais greco-latinas para favorecer, como se diz, um utópico encontro semântico com outras civilizações.

É curioso perceber, ao mesmo tempo, que essas outras civilizações com as quais se sonha dialogar, não sei em qual idioma, apressam-se em abandonar seus hábitos mentais tradicionais e tomam de nós o léxico nocional saído das ideologias liberais e socialistas. Enquanto o diálogo se realiza no erro do ideologismo, nossos teólogos "up to day" pedem que se renuncie às formas clássicas do pensamento greco-latino para recuperar não se sabe quais costumes religiosos abandonados, que seus próprios detentores trocam pela difícil linguagem publicitária dos nossos periódicos.

A encarnação do Espírito se dá em um ponto preciso, singular e concreto. Aí se faz carne, emerge no tempo e no espaço, assumindo as condições impostas pela história, o clima e a raça. Deus escolheu como mãe do Verbo uma virgem hebreia, a uma jovem de carne e osso que pertencia, por seu sangue, à estirpe de Davi. Aqui não há simbolismo nem abstração. Não se trata da noção universal de virgindade para satisfazer a vaidade filológica de algum imbecil ou o orgulho ferido das raças cujas virgens não foram escolhidas.

Os apóstolos também pertenceram ao povo de Israel e, sobre essa base humana, Nosso Senhor fundou sua Igreja. Desejou-se que em um momento determinado essa comunidade sacrificial tivesse sua cabeça em Roma e se expressasse principalmente em latim; fez-se assim porque convinha que assim fosse e porque essa é a única maneira de inciar uma ação entre os homens, tomando o instrumento conjunto que melhor pode servir aos desígnios providenciais que, nesse caso, eram essencialmente católicos.

Roma, e a civilização que nasceu de seu encontro com a revelação cristã, foi escolhida por muitas razões que nós ignoramos, mas é preciso perceber que a civilização latina foi a mais adequada, por suas condições, para cumprir a missão universal da Igreja.

Nossa intenção não é, no momento, discutir com quem nega à fé cristã seu papel civilizador e faz uma arbitrária distinção entre o cristianismo primitivo e a organização que a Igreja Católica Romana deu a essa força mística. Segundo essa ótica, a disciplina eclesiástica é um acontecimento posterior ao século primeiro e se origina em Roma, provavelmente sob a influência pagã. O cristianismo carismático, cuja cabeça limitada vê-se aqui e ali entre protestantes e católicos, seria um retorno às fontes messiânicas do cristianismo hebreu, milenarista e igualitário.

Não é difícil descobrir nessa distinção a presença do protestantismo, mas se os reformadores buscaram na erroneamente chamada Igreja Primitiva a mentalidade que beneficiaria suas próprias posições anárquicas, convidaria-os a ler o que o Reverendo Paul Tillich disse a respeito em suas reflexões sobre Pensamento Cristão e Cultura do Ocidente:

"O bispo é sacerdos, a função principal do sacerdote é sacrificial. O sacerdote sacrifica os elementos na Ceia do Senhor e repete assim o sacrifício consumado no Gólgota. Imita o que fez Cristo. Oferece um sacrifício verdadeiro e perfeito a Deus pai dentro da Igreja. Uma vez mais, isso não era idêntico à missa católica, mas conduzia inevitavelmente para ela".

E acrescenta, em outro parágrafo, para completar sua opinião a respeito de um pretendido retorno protestante às fontes do cristianismo primitivo:

"A Igreja Católica já estava formada perto do [ano] 300 de nossa era. É por isso que não podemos dizer que o protestantismo é uma reafirmação dos primeiros séculos. Os elementos católicos tiveram muito poder desde o início. Esse é um dos motivos pelos quais a solução intermédia do anglicanismo não funciona. O chamado acordo dos primeiros cinco séculos não é, a partir de nenhum ponto de vista, um acordo com os princípios da Reforma. Portanto, se alguém sugere que nos unamos, regressando ao desenvolvimento que transcorre desde Irineu até Dionísio Areopagita, eu diria a ele que se converta ao catolicismo, porque o protestantismo não pode fazer algo semelhante. Nesses primeiros séculos há muitos elementos na doutrina da Igreja que o protestantismo não pode aceitar. Ocorre o mesmo com o sistema de Autoridades, a teoria dos Sacramentos; em menor medida, a respeito da Trindade e da Cristologia" (Tillich, Paul, Pensamiento Cristiano y Cultura de Occidente, La Aurora, Buenos Aires, 1976, p. 79, tomo I).

A civilização latina, enquanto recebeu o influxo da religião católica, começou o grande périplo de uma transformação cultural solicitada pela pressão misteriosa da Graça. Os efeitos transfiguradores da vida sobrenatural não só se fazem sentir sobre a alma individual, influem também sobre as atividades do espírito como a ciência, a economia, a arte e a política, sob a influência do homem sobrenaturalmente regenerado.

Os inimigos da Igreja atacam seus ensinamentos a partir de duas visões: o estoico pagão e o ideólogo moderno. A distinção não significa que o primeiro deles pertença ao passado e tenha desaparecido totalmente dos nossos hábitos mentais. Hoje, pode-se perceber um recrudescimento um tanto arqueológico das acusações de Celso, que encontram uma fácil escusa na invasão do sentimentalismo exacerbado que afeta a hierarquia da Igreja.

O prato principal dos injuriosos estoicos residia na prédica plebeia e contrária a toda excelência que atribuíam à Igreja. Refúgio de gente estúpida e sediciosa, alentava todos os ressentimentos de um povo escravo contra o que podia existir de nobre e forte nas classes superiores da civilização greco-latina. Aos novos corifeus do estoicismo universitário não custa nada ressuscitar essas mentiras, criando a versão de um monoteísmo judaico-cristão, fundamentalmente torpe, anarquizante e apátrida, lançado com toda a força negativa do ressentimento, contra a ordem e a hierarquia da sociedade pagã;

Não é necessário aos apologistas cristãos forçar a doutrina para defendê-la de uma impugnação tão gratuita e contrária ao ensino do Magistério Eclesiástico. É verdade que alguns aspectos do contexto evangélico podiam dar lugar a uma interpretação ressentida, mas precisamente o papel da Igreja foi evitar a unilateralidade na interpretação dos textos sagrados e deter a inflação dos parágrafos soltos. Desta maneira, protegeu a propagação de uma disciplina que, sem deteriorar o conteúdo escatológico da fé, harmonizava com as exigências da vida civilizada em suas mais nobres expressões.

O estoicismo critica no cristianismo a exaltação da humildade e o socialismo moderno seu desdém pela questão social. Um e outro sem nenhuma inteligência para perceber o ponto de vista em que se coloca a Igreja e que permite dar a resposta cabal a todos os problemas fundamentais da realidade humana.

A "humilitas" é a consciência de finitude e de dependência total perante Deus que descobre o único caminho verdadeiro pelo qual pode transitar nosso reencontro com o Absoluto. A questão social, como se diz hoje, não se poderá resolver jamais se não é na figura da generosa entrega dos fortes a serviço dos mais fracos. Isso pode parecer uma utopia se leva-se em conta as fraquezas da nossa natureza decaída e sua vigorosa inclinação ao abuso, mas é muito mais difícil esperá-la de uma mudança que não tenha sido auspiciada pela conversão espiritual do apetite.

O cristianismo, em sua acepção romana, nunca negou o valor da propriedade privada como fundamento econômico da vida familiar, nem predicou uma igualdade que desconhecesse as hierarquias naturais e históricas da ordem social. Por vezes, ensinou que essas hierarquias não constituem privilégios válidos para o Reino de Deus. Existem, são boas e necessárias para embasar a sociedade terrena. Impõem-se como uma consequência lógica das aptidões desiguais que os homens possuem no exercício de suas atividades temporais. Quando se trata do Reino de Deus, as condições exigidas são outras, outras as desigualdades e outros os parâmetros para medir os méritos.

Nunca se sustentou na cristandade que a boa disposição para fazer uma excelente carreira honrosa fechará as portas do céu, ainda que se tenha prevenido sempre contra a excessiva adesão aos bens materiais. Do que se falou a todo instante foi do desapego e do caráter efêmero de tais bens e da generosidade que é bom possuir para utilizá-los em favor dos mais fracos. Tampouco se ensinou que a debilidade, a pobreza e a ausência de dignidade valessem por si mesmas.

A fé, a esperança e a caridade não são virtudes imbecis e com uma exagerada propensão a crescer em terrenos covardes. Requerem, antes de tudo, uma boa vontade e uma inteligência dócil ao dado revelado e pouco influída pelo desejo constante de justificar más paixões e interesses baixos. Se pensarmos bem, para ser um bom cristão é necessário uma limpeza de alma pouco comum e isso, no fim das contas, implica uma nobreza.

Para concluir nossa reflexão com uma referência precisa à interrogação do título, convém dizer que a aproximação destes dois termos, judaico-cristão, tem um sentido muito limitado quando se refere às comunidades cristãs formadas por judeus conversos, que mantinham as tradições culturais do povo de Israel. Com essa acepção a utilizou Jean Daniélou em seu conhecido livro Théologie du Judéo Christianisme editado por Desclée em 1958. Aplicado às verdades reveladas por Deus, traz consequências lamentáveis porque relativiza o conteúdo religioso, fazendo-o depender da civilização hebreia, e isso não é católico, embora venha com a pretensão de ser muito protestante e moderno. Tampouco é aceitável se o aplicamos à nossa civilização, que é, essencialmente, greco-latina, apesar de tudo quando possam dizer Alain de Benoist e Bernard Henri Lévy em seus livros Comment peut on être Païen? e Le Testament de Dieu, que parecem especialmente escritos para ilustrar como podemos nos equivocar brilhantemente quando colocamos no que dizemos mais paixão que inteligência.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O homem desamparado

Artigo do Mons. Dr. Octavio Nicolas Derisi para a revista Reconquista, volume I, nº 3 (1950)

Resultado de imagem para nicolas octavio derisi
Octavio Nicolas Derisi, expoente do neotomismo argentino na metade do século XX

1. O homem não é a plenitude do ser. Contingentemente existente, seu ser está recortado na sua existência pelas notas finitas de sua essência.

Daí que o não-ser da finitude seja sua herança essencial, que limita sua entranha ôntica e circunscreve sua atividade ao modo do seu ser. A fraqueza, a enfermidade e a morte, no plano físico, a ignorância e o erro no de sua inteligência, as paixões, a debilidade de sua liberdade e a defecção moral, no plano de sua vontade; em uma palavra, o não-ser do ser, no plano ôntico - que no plano físico e moral constitui o mal - desgarra e compromete constantemente a perfeição do seu ser e de sua atividade em todas as ordens. 

2. Precisamente o não-ser a plenitude do ser senão somente tê-lo contingente e finitamente, é um indício de que o centro de gravidade do homem está fora dele: a Causa primeira e o Fim último de sua existência, sua origem primeira e seu destino definitivo, o transcendem infinitamente. Seu ser só pode vir do Ser ou Existência necessária e infinita e, por isso mesmo, tampouco seu Fim ou Bem supremo pode ser outro que esse mesmo Ser infinito. 

Desde então, não só sua realidade substancial como sua mesma atividade específica espiritual e, por essa, toda sua vida só se libera do não-ser da limitação na medida em que, transcendendo os limites da sua própria imanência ôntica, se enriquece com a possessão do ser transcendente -  identificado com a verdade e o bem - em direção ao Ser transcendente - Verdade e Bem - infinito, que lhe confere sua própria e imanente plenitude. 

Desde então, o caminho de perfeição do homem aparece como uma subordinação e ordenação ao ser transcendente, recorrido com esforço até a penetração do ser transcendente, na sua imanência infinita. Com o ser, penetra no homem a perfeição, a verdade e o bem. 

Submetendo-se a tal ordenação até seu último Bem ou Ser transcendente divino, através do ser ou bem das coisas e do mundo, o homem não só permanece ele mesmo articulado e centrado no término definitivo de sua perfeição e no caminho até ela, como que nele cobram sentido e se ordenam as coisas em um plano hierárquico: a realidade material serve ao seu ser corpóreo, seu corpo à sua vida vegetativa, essa à sua vida consciente material ou sensitiva e essa, por sua vez - e por ela as anteriores - à sua vida espiritual. Todo o inferior ao homem como tal fica assim subordinado e integrado nele, e por ele, à ordem divina. Porque por este último trecho de seu ser e vida espiritual, que o coloca em seu ser específico e acima de todo ser material, o homem se abre à transcendência do ser - verdade e bem - e, em definitivo, à transcendência do Ser de Deus, Bem infinito em cuja posse se aperfeiçoa e atualiza plenamente em sua própria imanência. E, ao encontrar seu definitivo destino divino, além do seu próprio ser e atividade, o homem, subordinando-se a Deus como a seu Bem ou Fim supremo, encontra o caminho da própria perfeição ôntica: o caminho da verdade e o caminho do bem moral ou especificamente humano. Chegando a Deus como Verdade suprema, descobre a verdade e o sentido recôndito das coisas. Chegando a Deus como a seu Bem supremo, descobre a norma moral que canaliza sua atividade livre até sua perfeição junto com o motivo último de sua submissão à ela. E, pelo homem assim ordenado em busca de seu Fim divino, no caminho até sua perfeição, a verdade e o bem, todas as coisas inferiores - e ainda os aspectos subalternos de seu próprio ser - enquanto a ele se subordinam são conduzidos à sua própria perfeição, à plenitude do seu próprio ser. Cegas para descobrir e encaminharem-se a si mesmas ao seu último Fim divino, submetidas e servindo ao homem, consciente e livremente subordinado a Deus, seguem o caminho até aquele definitivo destino.

Nessa mesma subordinação ao Ser transcendente, encontra ele a norma moral, que o vincula com deveres e direitos frente aos demais homens individual e socialmente considerados.

Deus se apresenta, assim, desde sua transcendência infinita, como a pedra angular que sustenta não só como Causa primeira, mas também como Fim ou Bem supremo, todo ser em si mesmo e em sua atividade: o mundo e o homem. A ordenação hierárquica do mundo material ao espiritual, e do homem à verdade e ao bem e, em geral, à sua perfeição específica pela trilha corpórea e espiritual, pela via intelectiva e volitiva moral - contemplação e ação - assim como a organização social dos homens entre si está condicionada e sustentada, desde a transcendência, em Deus, pelo reconhecimento e submissão ao Ser divino e à sua Lei eterna que é, por isso, a Lei do aperfeiçoamento do homem e, pelo homem, das coisas. A palavra de Deus: Servire Deo regnare est, tem cumprimento ainda na ordem puramente temporal ou filosófica. 

Se o homem natural deixa de apoiar seu ser e atividade no ser transcendente e, em definitivo, no Ser de Deus, toda essa ordem ontológica se desarticula e se derruba, toda essa hierarquia ôntica se desvanece e é substituída pela anarquia das forças cegas saídas de seu canal racional; e o homem perde o caminho de sua perfeição, da verdade e do bem, desaparecido em seu ser finito e contingente, sem sentido, sem razão de ser, contraditório em si mesmo, despojado de toda norma de verdade para sua inteligência e de bondade para sua vontade livre; o mundo material se torna opaco e absurdo, perde sua subordinação ao homem, desde que ele perdeu a sua para com Deus, quem dava razão de ser e sentido a toda essa articulação orgânica e hierárquica do ser; e a ordem jurídica, que nutre suas raízes nas fontes da moral, é despojada de seu fundamento e fica reduzida e substituída por uma ordem puramente mecânica e de força do Estado.

Por todo lugar [reina] a desordem, a imperfeição, a ignorância, a destruição e o mal.

3. Na Idade Moderna, o homem sucumbiu paulatinamente à tentação de independência e tentou desfazer-se gradualmente de sua essencial submissão e de articulação no ser e de suas exigências ontológicas, substituindo uma ordem hierárquica, dependente e sustentada em Deus, por uma suposta ordem de absoluta liberdade, de independência de todo vínculo estabelecido e exclusivamente dependente do próprio homem. 

Mas o homem esqueceu que nessa subordinação e, em última instância, a Deus, seu ser finito e contingente encontrava o fundamento de sua própria perfeição e das coisas a ele ordenadas, sua defesa e, com esse acréscimo de seu ser e de sua vida, o caminho até sua autêntica liberdade: do domínio sobre as paixões e sobre sua própria atividade, assim como sobre as coisas a ela submetidas, e a ordem com os demais homens em uma sociedade organicamente estruturada. Em uma palavra: a ordenação de seu próprio ser e de sua atividade dentro de si e dentro de uma ordem ontológica total. Ao tentar romper os vínculos com a transcendência do ser divino sob o pretexto de conquista do seu próprio ser humano e independência, de fato [o homem] se privou de sua própria defesa e perfeição e introduziu o princípio de dissolução e, com ele, de sua própria escravidão e desamparo frente aos demais e às forças cegas do instinto e da matéria.

Desarticulado da fonte ontológica de sua perfeição e da perfeição do mundo, o homem perdeu em seu conhecimento a visão integradora da realidade total e, na sua vontade livre, a norma e perfeição moral e, por conseguinte, o fundamento da convivência social. O homem começou arruinando-se como homem, em sua vida especificamente humana.

Mas o processo de desintegração crescente, que se inicia daquele princípio equivocado, não se deteve nas camadas superiores da vida e do ser humano; penetrou mais fundo até desarticular os seres e forças materiais do domínio do homem, assim como privar o mesmo da segurança de sua existência  e vida material.

O antropocentrismo renascentista quis desatar as forças materiais, descobriu suas leis e aprendeu a dominá-las e manejá-las. E com seu mesmo uso chegou paulatinamente até descobrir e assumir o controle sob as forças mais poderosas do mundo inorgânico, até a desintegração do átomo. Porém, essa mesma cosmovisão que alentou e favoreceu o progresso científico, sempre através do mesmo princípio de desvinculação do ser transcendente, de Deus, em última instância, careceu do poder integrador de tais descobrimentos e frutos da ciência no bem específico do homem, da subordinação do uso de tais forças à norma moral ou de aperfeiçoamento humano, precisamente porque essa se funda em Deus. Toda a atividade humana perdeu, assim, seu centro de gravidade, sua norma e princípio de perfeição específica e, desse modo, sucessivamente se amoralizou em suas diversas ordens: a filosofia, a arte, o direito, a economia, a ciência e a técnica. Primeiro foi a independência ou laicização da filosofia, logo da moral e do direito e da economia, depois da arte e, finalmente, da ciência e da técnica. O homem desatou sucessivamente as forças naturais - a desintegração do átomo assinala seu cume -; mas, quando se cria dono dessas forças e fortalecido em seu poder material com elas, é aqui que se encontra impotente para dominá-las e submetê-las ao seu próprio bem. Desarticuladas da moral - que é o mesmo que dizer: do princípio de perfeição humana ou, mais brevemente, do bem do homem - tais forças cegas e infinitamente superiores à força física do homem se voltam agora contra ele e ameaçam destruir sua mesma existência e as condições de sua possibilidade sobre a terra.

É assim, como por um processo de descomposição - implacável e cego como a matéria, de cujo determinismo brota, uma vez apodrecido seu vínculo de subordinação à atividade espiritual e livre do homem - este, que ilusoriamente creu que, desarticulando-se e insubordinando-se contra Deus e, com Ele, de toda norma e sujeição, iria encontrar-se mais plenamente dono de si mesmo e encontrar sua inteira liberdade sobre si e o domínio do mundo material, esquecendo-se que não é a plenitude do ser, que não é Deus, mas apenas ser finito e contingente e, como tal, dependente de Deus para todo o seu bem autêntico; privou-se realmente do princípio e fundamento de sua própria perfeição, fechando todos os caminhos de sua íntima ascensão, condenou-se ao desamparo e aniquilamento, primeiro em sua interioridade espiritual, e logo em sua própria vida material, abandonado a um mundo social anarquizado que o despedaça, sem proteção de seus direitos frente aos demais e ao Estado e a um mundo material de forças desatadas e desarticuladas das normas morais e humanas, que ameaçam aniquilá-lo totalmente.

E encaremos esse homem que, sonhando em sua humanização e liberdade absolutas, morre agora de inanição humana, quebrada a comunhão com a fonte transcendente divina que o alimentava em sua própria vida imanente, sem rota em sua vida intelectiva, rodeada de erro e de ignorância nos problemas fundamentais de sua existência - o quê somos, de onde viemos e para onde vamos - sem norma moral para conduzir-se a si mesmo até sua própria perfeição e se vincular com os demais homens em uma sociedade orgânica e submeter as forças materiais ao seu próprio bem; submetido, desse modo, à sua ignorância, às suas paixões, à violência dos demais e à brutalidade das forças cósmicas.

O resultado não pode ser mais paradoxalmente desastroso frente o tentado em seu começo. E, porém, devemos confessar, este trágico término estava eviscerado naquelas desgraçadas premissas essenciais de independência frente ao ser e, em definitivo, frente a Deus. 

O interior da catedral de Metz, com seus arcos e pedras angulares que os sustentam, assim como todo o edifício humano, dependente de Deus


4. As autênticas conquistas do direito, da economia, das ciências matemáticas e indutivas, da arte e da técnica perderam sua unidade orgânica, sua integração e subordinação ao homem, desenvolveram-se com inteira independência e, desarticuladas inteiramente desse, desumanizaram-se e se anarquizaram precisamente porque, ao desarticular-se de seu Fim supremo e divino, o homem perdeu o sentido de sua própria vida e o fundamento supremo e princípio de toda a ordem hierárquica, removeu a pedra angular que sustentava o magnífico edifício da organização que durante séculos foi elaborada durante a Idade Média e deu luz à cultura ocidental. Partindo de um mundo desorganizado e análogo ao nosso, sob o alento e direção de uma concepção teocêntrica e aproveitando os restos em decomposição da cultura antiga, o Cristianismo conseguiu lhes infundir um novo espírito e forjar assim uma ordem orgânica, que deu origem à cultura greco-latina-cristã, à Cristandade, à Europa.

Com todas as suas deficiências e limitações, essa cultura, cimentada, alimentada e organizada sobre o ser ou bem e, definitivamente, sobre o Bem supremo, submetendo o homem às exigências normativas desse último Fim transcendente, encaminhou-o pela trilha de sua própria perfeição e submeteu a ele todos os estratos inferiores do ser e atividade, incorporados na ordem humana. Perdendo-se em Deus, encontrou-se plenamente a si mesmo e encontrou o sentido de seu ser e atividade no tempo e na eternidade, e a submissão hierárquica dos aspectos inferiores do próprio ser e atividade do homem e dos seres exteriores a ele: a integração de todas as coisas no homem e do homem em Deus.

5. O desamparo do homem atual frente a suas próprias criações da arte, da economia, do direito, das ciências e da técnica, desarticuladas e adversárias da perfeição humana a que essencialmente estavam dirigidas, assim como perante as forças materiais desatadas por essa ciência e técnica, e sobretudo seu íntimo e interior desamparo em sua vida específica, em sua inteligência e vontade, desarticuladas de seu próprio objeto e Bem infinito e condenadas, assim, à esterilidade e autodestruição - desamparo do qual se deriva aquele primeiro - só tem uma saída: a reintegração da vida e do ser espiritual humano em seu verdadeiro último Fim transcendente, em Deus e, por ela, o reencontro do caminho da verdade para a inteligência e da norma moral para a vontade livre, a reintegração de toda a sua atividade e ser inferior, e das coisas e forças exteriores subordinadas àquela, a seu próprio bem especificamente humano.

Precisamente porque somos de e para Deus, reconhecendo nossa origem divina e ordenando-nos a Deus como a nosso supremo Bem, encontramo-nos e realizamo-nos plenamente como homens e, quando fazemos isso, reconhecendo que somos de e para Deus, as coisas, por sua vez, encontram seu próprio destino e perfeição no serviço e subordinação ao homem. Omnia vestra sunt: vos autem Christi, Christus autem Dei (I Cor. III, 23).


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O tempo fugaz, o homem imperfeito e a Verdade imutável

Mais um ano se encerra. 2018 anos desde a vinda de Cristo já se passaram. Há dois mil anos, o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem é ainda um simples carpinteiro na Palestina; aprende o ofício com seu pai, o justo São José. O maior Império da época tentará destruir os gérmens da Religião por Ele pregada, que cresce extraordinariamente no embalo das peregrinações dos “pescadores de homens”. Há mil e quinhentos anos, a Europa observa a ruína do mesmo Império que começara como uma pequena vila agropastoril no Lácio, e as hordas dos chamados bárbaros se apoderam dos seus territórios. Difícil missão trazê-los à Luz da Verdade, que alcança sucesso inimaginável. Há mil anos, ao passo que enfrenta os ataques e pilhagens de escandinavos e sarracenos, a Cristandade começa a tornar-se fato consumado graças ao empenho dos monges, restauradores da fé, da cultura e até mesmo da economia no Velho Continente. 

Há quinhentos anos, a Revolução de Lutero abala a Europa, enquanto as Américas, bem como partes da África e Ásia, começam a receber a Luz da Boa Nova graças a duas pequenas nações que, não satisfeitas com o pequeno espaço que a Providência lhes reservara na Península Ibérica, navegam pelos oceanos e mares bravios com o auxílio da mesma Providência para conquistar mais que terras: almas, e aos milhões. Muito além das riquezas terrestres, acumularão riquezas no Céu. A própria Virgem Maria descerá ao Tepeyac e sua imagem aparecerá posteriormente no rio Paraíba, tornando-nos herdeiros daquela mesma Cristandade que se esfacelava diante do monge rebelde e seus asseclas. 

Há dois séculos, o mundo experimenta, em diferentes graus e sob diferentes formas, os efeitos trágicos da Revolução liberal francesa, inspirada pelo enciclopedismo iluminista. Novamente, não faltam aqueles que se insurgem contra a nova ordem, verdadeira desordem, da sociedade: Alguns nobres, sacerdotes fiéis a Deus e ao rei e camponeses que preferem a liberdade e fraternidade concreta sob a égide cristã ao invés da criação abstrata revolucionária levantam-se nas regiões interioranas do noroeste francês. Há um século, o mundo vê horrorizado os primeiros desastres da Revolução Comunista na Rússia. A Igreja levanta-se, uma vez mais, contra o totalitarismo ateu e, décadas depois, contra a falsa oposição também totalitária, e pagã. Concomitantemente, ocorre o fim de uma guerra brutal que supostamente acabaria com todas as guerras. Vã ilusão de um mundo secularizado, destroçado pela filosofia moderna e seus múltiplos enganos: crer no primado da paz tendo expulsado o Príncipe da Paz. 

Há meio século, a tecnologia avança como nunca: o mundo torna-se cada vez menor frente à velocidade das comunicações e dos transportes, o homem está prestes a visitar a Lua e a tensão da Guerra Fria faz-se presente. Na Igreja, modernistas e comunistas se infiltram e parecem, por vezes, triunfar. Mas Deus nos lembra da Sua Promessa de que “as portas do inferno não prevalecerão contra Ela” e homens fiéis à Tradição Católica combatem o inimigo com a coragem de leões. Novas revoluções vêm à tona, erros antigos repetidos à exaustão contra a Verdade sob a aparência de novidade seguem na vã tentativa de derrotar o Vencedor, cindindo a ordem natural da sobrenatural e, como consequência, desordenando aquela mesma ordem. 

Curioso é observar a relação do homem com o tempo na longa história dos séculos: esse ser imperfeito, com o intelecto sujeito a enganos e a vontade sujeita a desânimos parece querer assenhorar-se do relógio. Deveria aprender que o homem não é sequer senhor de si mesmo. Completa-se quando se subordina ao Sumo Bem, à Perfeição que é Deus, O qual tudo criou e jamais foi criado. Afastado dEle, o homem tem pressa. Economizar o tempo através do avanço tecnológico, da energia elétrica, do carro, do avião, das redes sociais: este é seu objetivo. Tenta, ao viver atarefado no mundo, economizando e ocupando o tempo para auxiliar o progresso material, fugir do inexorável destino de toda criatura: a morte. Assim ocorre com os vegetais, com os animais brutos e conosco. Cedo ou tarde, a natureza decaída virá cobrar seu soldo. Que importa, então, controlar o tempo? 

Longe de cair no engodo niilista, desesperançado e, por isso mesmo, desgraçado. O que diferencia o homem dos demais animais é possuir uma alma racional, que viverá eternamente e que, após a ressurreição dos corpos, estará junta ao corpo com o qual passou nesta terra. Os caminhos apontam para a Felicidade ou a condenação. Sabendo que está distante de Deus, o homem moderno foge da morte como o diabo foge da Cruz. Em meio a tantos afazeres e distrações, ele se esquece de cuidar da própria alma, o bem mais precioso que o Criador deu a cada um de nós. 

Ainda que a noção da condenação nos assole, razão não temos para temer com tal pavor que fiquemos desesperados. Assim como a história mostra a criatura humana, andarilha numa terra que lhe pertence apenas por algum tempo, sempre pequeno, ainda que Deus estabeleça quão pequeno é com ligeira diferença para uns e para outros, mostra-nos ainda o seguinte: não importa o quanto o mundo gire ou quantas revoluções estourem, a Cruz continua a mesma. A Verdade é imutável, indestrutível e imperecível. Não se veste com as roupagens das modas nem caminha conforme os tempos: continua sempre invicta, resistente e intacta. 

Que aparentemente seja derrotada não é coisa nova: a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz também pareceu derrota aos olhos do mundo. Bem sabemos que, na verdade, ela feriu mortalmente a verdadeira morte: a do pecado. E Cristo vence, Cristo reina e Cristo impera. Quanto aos Seus seguidores, à palma das torturas e do martírio, físico ou não, segue-se a coroa da Glória. Loucura para os pagãos, essa é a linguagem da Cruz: escrita com Sangue Inocente que redime o homem, germina e dá inúmeros frutos em todo o orbe terrestre. 

Os anos vêm e vão na longa aventura humana. Não faz essencial diferença àquele que sabe o que lhe espera e busca a Verdade com um coração sincero a todo instante, no presente. É um novo ano de combate à carne, ao mundo e ao demônio. É um novo ano para ganhar o Céu. É um novo ano para entronizar este Rei que é Cristo no coração e, sobre a base de uma sólida vida privada, dar testemunho dEle na vida pública. Que tenhamos todos consciência de tal dever, para que não sejamos escravos do tempo e deixemos para depois, tal como aqueles que acreditam serem senhores do relógio quando Deus o tem nas mãos, aquilo que pode ser feito hoje para a nossa salvação e do nosso próximo.

Temperança. Retidão. Coragem. Fé. Uma estátua que traduz a atitude do homem que ama a Verdade em relação aos tempos e seus costumes.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Valores eternos

Comentário do jurista José Pedro Galvão de Sousa publicado na revista Reconquista, vol. I, nº 2 (1950). Asteriscos meus, notas do autor.


Família rezando a Ave-Maria ao cair da noite. Pintura de Ferdinand G. Waldmüller.

Dizer-se tradicionalista nos dias que correm não é para os cortejadores da aura popular, para os espíritos impressionáveis que reduzem o futuro do mundo às vinte e quatro horas do dia seguinte.

Estes hão de preferir outro vocabulário político. Serão os homens da "democracia", do "socialismo", do "progressismo" (1). Depois das últimas eleições inglesas talvez tenham deixado de ser os homens do "trabalhismo", se é que perceberam o verdadeiro alcance daquele pleito.

Tradicionalismo, para eles, é igual a passadismo. É puro conservadorismo. É pura utopia. Para não falar já dos que grosseiramente o confundem com os nacionalismos totalitários.

Procuram as vantagens do momento. Fazem a política do êxito imediato. Acomodam os ideais às circunstâncias, sacrificando muitas vezes a pureza daqueles às exigências inexoráveis destas.

Tudo isto podia dar muito certo - no ponto de vista em que se colocam - numa época pacatamente burguesa, como a Europa de antes de 14 ou o Brasil antes de 30.

Mas hoje tal imediatismo ilusório nem sequer permite colher, por algum tempo que seja, os frutos desejados. Os acontecimentos se precipitam, a guerra atômica tolda os horizontes com a sua terrível ameaça e o realismo soviético zomba dos seus cândidos adversários.*

Em meio a essa pavorosa confusão mental, dizer-se tradicionalista é necessariamente afrontar os ídolos do tempo. Mas é também considerar os fatos sub specie aeternitatis. É fazer a política da verdade histórica. É ser intransigente na defesa de um ideal, aguardando a hora em que a Providência permita a sua plena realização, sem concessões nem meias tintas. 

Não se trata propriamente de conservar. Há tanta coisa errada que precisa desaparecer! Não se trata de voltar atrás, pois a história não é uma fila de cinema que se possa fazer correr em sentido contrário. Contemplar beatificamente o passado seria recursar-se a qualquer ação sobre o presente e o futuro. Trata-se, como escreve Gustave Thibon, de "um retorno não ao passado como tal, mas aos valores eternos que floresceram nas melhores épocas do passado".

Esses valores eternos são elementos permanentes na organização dos povos. Repudiá-los é ferir a ordem social e humana nos seus princípios fundamentais, é por isso mesmo abrir a porta às crises insolúveis. Há uma política natural fora de cujos preceitos as sociedades se desencaminham e caem na anarquia. As prerrogativas inalienáveis da criatura humana, o caráter sagrado da família, a autonomia dos grupos sociais em face do Estado, tudo isso são princípios que floresceram em determinadas épocas com maior viço, e que hoje se acham comprometidos ou mesmo suprimidos por completo. 

Restaurar as condições que possibilitem a sua nova florescência não é retroceder no curso da história. É receber da História as lições de "política experimental" que ela sabiamente nos oferece.

Pretender construir o mundo novo de amanhã sem esse lastro de experiência é o mesmo que edificar sobre areia ou divagar através das nebulosidades da "política abstrata". (2)

E qual a primeira restauração a promover?

A restauração espiritual. A volta à verdade católica. O restabelecimento do primado da ordem sobrenatural.

O homem não vive só no estado de natureza. Elevado ao plano sobrenatural, aí encontra a perfeição do seu ser. Cindir a ordem natural e a sobrenatural é mutilar o homem. E organizar as sociedades como se o homem se movesse somente no plano da natureza é deixá-las na perpétua desorganização a que as atirou o Estado leigo.

Atendam os povos e não só os indivíduos ao apelo do Sumo Pontífice para o grande Retorno, feito ao ser promulgado o presente Ano Santo.

Só o retorno aos valores eternos, aos valores da Tradição - que constituem, como diz Francisco Elías de Tejada, em artigo inserido neste número**, a "medula dos povos" - só esse retorno poderá salvar a humanidade.

Retorno que será Reconquista: a reconquista de valores florescentes outrora e perdidos nos descaminhos por onde vagueiam sem norte os povos modernos. 


NOTAS E ASTERISCOS 

(1) O verdadeiro progresso se fundamenta na tradição, pois é fruto dos esforços das gerações que nos precederam. Quanto à democracia, deixou de ser a efetiva participação do povo no governo para se transformar no absolutismo de uma fictícia "vontade popular". É nas lições do tradicionalismo político que se encontram os rumos de uma autêntica democracia. 

(2)  La Tour du Pin dizia que, com a Revolução Francesa, termina a fase do direito histórico e se inicia a do direito abstrato. Digamos o mesmo da política. 

*Lembremos que o autor escreve no ano 1950, em plena Guerra Fria.
**La Lección Política de Navarra, publicado também na revista Reconquista, vol. I, nº 2. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O sentido comunitário do casamento e da família

Excelente artigo escrito pelo jurista católico José Pedro Galvão de Sousa para a IV Jornada Chilena de Direito Natural (1979)

José Pedro Galvão de Sousa

O CONSÓRCIO MATRIMONIAL

É admirável como um pagão - Modestino - soube expressar com tanta profundidade o caráter comunitário do casamento, que o Cristianismo veio elevar ao seu máximo grau com a instituição do sacramento do matrimônio.

Bem conhecida é a fórmula lapidar daquele jurisconsulto romano definindo as núpcias a união entre o homem e a mulher, num consórcio perene e numa comunicação dos direitos divino e humano: Nuptiae sunt conjunctio maris et feminae et consortium omnis vitae, divini et humani juris communicatio (D. 23, 2, 1). 

Se grandes filósofos da antiguidade, na Grécia clássica, se anteciparam aos expoentes da filosofia cristã fazendo antever certas verdades por estes manifestadas em todo o seu esplendor, da mesma forma os juristas romanos antigos alcançaram, por via da razão, os princípios fundamentais do direito natural confirmados e transfigurados pelo direito cristão. 

Assim com o casamento. 

Da definição em apreço ressalta, em tríplice aspecto, o sentido comunitário da união matrimonial. Comunitário porque não vem só de um acordo, não se restringe a um contrato, não significa mera colaboração, mas, muito mais do que tudo isto, é vida em comum, fusão de sentimentos, integração mútua de dois seres na marcha para a realização de um mesmo destino. No século passado, o individualismo jurídico não viu no casamento mais do que um contrato. Ora, esta concepção de tal modo esbarrava contra a realidade patente aos olhos dos psicólogos, dos sociólogos e dos historiadores, que aquela visão unilateral e deformante não pôde resistir à análise objetiva e profunda dos maiores cultivadores do direito civil. E destes, como já tem sido observado, não há hoje um só, entre os verdadeiros cientistas do direito, que considere o casamento una situação estritamente contratual. 

Vejamos, pois, quais são os três aspectos indicados por Modestino: conjunctio, consortium, communicatio. 

Conjunctio: a união conjugal 

O casamento é a união do homem e da mulher, união cuja natureza decorre da essência do ser humano e de inclinações que lhe são próprias manifestadas pela dualidade de sexos. 

Essa união constitui o casamento ou matrimônio, que se fundamenta na lei natural. 

As disposições da lei natural não fazem mais do que nos apresentar o paradigma do procedimento humano para que este seja conforme à própria natureza do homem, a qual se manifesta pelas inclinações que lhe são próprias: a inclinação para a conservação da vida (correspondente ao instinto de conservação dos animais e a igual tendência nos seres do reino vegetal e até do mineral), a inclinação para a reprodução biológica (também existente entre os animais sob forma meramente instintiva) e a inclinação para o conhecimento da verdade ou para a vida social (estas últimas decorrentes da racionalidade humana, não se devendo confundir com a sociedade propriamente dita, agregados animais, com os das abelhas, das formigas ou dos castores). A reta razão, norma próxima da moralidade dos nossos atos, dá-nos a conhecer, com base na experiência, tais inclinações, e o que devemos fazer para as seguir de maneira condigna à nossa natureza e capaz de permitir a realização dos fins da vida humana. 

Diga-se de passagem que o direito natural, longe de ser uma pura abstração, uma quimera, tem um valor objetivo, ontológico, e suas disposições não fazem senão obrigar-nos ao respeito àquilo que essencialmente somos. Por isso, diz Cícero, numa de suas páginas imortais, que foge de si mesmo, renuncia à sua própria natureza, despoja-se da dignidade de ente humano quem desobedece às prescrições da lei natural, recaindo sobre si próprio, e como um castigo, as consequências sempre desastrosas da ruptura da ordem (De republica, II, 22). 

Posto isto, voltemos a considerar a lei natural enquanto fundamento do matrimônio. 

Três questões cumpre considerar aqui: 

1) Os fins do casamento; 

2) A obrigação do casamento; 

3) A origem do casamento. 

Quanto aos fins, eles se inserem numa hierarquia. A finalidade principal do casamento é a procriação, pois nisto se encontra a razão de ser da necessidade da união conjugal procedente da dualidade de sexos. A propagação do gênero humano é assegurada pela geração da prole. E desta resulta, como consequência necessária, a educação dos filhos, dever e direito natural dos pais. Além disso, o casamento é ordenado pela natureza ao amor e auxílio mútuo dos cônjuges. Finalmente, ele proporciona a disciplina moral tradicionalmente indicada pelos teólogos na expressão remedium concupiscentiae. 

A obrigação do casamento não é imposta pela lei natural a todos os indivíduos singularmente considerados. Entre as inclinações conformes à lei natural, algumas visam ao bem do indivíduo – por exemplo, a conservação da própria vida – e outras ao bem do gênero humano, e este é o caso da inclinação matrimonial. Ora, aquilo que se exige para a perfeição do gênero humano pode não corresponder à perfeição de um indivíduo. Assim se explica que o estado celibatário seja também plenamente conforme à lei natural, podendo mesmo tornar-se fonte de grande perfeição para o indivíduo – quando este o observa a serviço de Deus – e de muitos benefícios para a sociedade. Donde o ensinar a Igreja a excelsitude da virgindade consagrada, enaltecida pelo Apóstolo das Gentes num plano superior ao do matrimônio (2ª Epístola aos Coríntios, capítulo 7). 

Quanto à sua origem, ainda segundo a lei da natureza, o casamento é, sem dúvida, um contrato, pois não existe senão mediante o consenso mútuo dos nubentes, mas longe está de poder comparar-se aos contratos que dependem só da vontade das partes contratantes. Com clareza, explica Leonel Franca, no livro III, capítulo primeiro, de seu notável e sempre atual ensaio O Divórcio: “O matrimônio é, portanto, um contrato que só depende dos contraentes quanto à sua existência, não quanto à sua natureza. O consentimento dos nubentes é necessário para a constituição da família, não para a sua conservação. Esta depende da própria natureza da sociedade conjugal. A vontade dos cônjuges deve adaptar-se-lhe como a uma obrigação moral superior. Já São Boaventura distinguia as causas eficientes em duas categorias: não conservantes e conservantes. As primeiras produzem o efeito e não o conservam: tal a faca que abre uma ferida; as outras são necessárias para a produção e conservação do efeito, como o sol relativamente à luz. O consentimento dos cônjuges no contrato matrimonial é simplesmente eficiente; dá nascimento a uma família. A sua causa conservadora é a própria natureza com suas exigências superiores e intrínsecas da unidade e perpetuidade”. 

Tais considerações põem em evidência que na união conjugal a liberdade das partes é superada por razões superiores, decorrentes dos fins naturais do casamento. O que condiz com o sentido mais profundo do amor que une os cônjuges. A este propósito cabe lembrar as seguintes e belas reflexões de Gustave Thibon em seu livro Ce que Dieu a uni: On ne prend pas une épouse, on se donne á ele. Se marier c’est peut-être la façon la plus directe de ne plus s’appartenir [i. e.: nós não tomamos uma esposa, nós nos damos a ela. Casar-se talvez seja a maneira mais direta de não se pertencer mais]. 

Fruto do amor, a união conjugal é uma escola de sacrifício, mesmo porque o sacrifício é a prova do amor. O verdadeiro amor consiste no desprendimento de si mesmo e na entrega à pessoa amada, sem medir sacrifícios. O que ocorre tanto no caso do amor conjugal como no dos amores materno e paterno. Amor não se confunde com paixão animal, segundo pensam os que do prazer fazem a meta da vida. Se o amor pode nascer da fogueira de uma paixão, ele acaba por converter-se numa comunhão de almas e de vidas. Caso contrário, não terá passado da expressão de um refinado egoísmo. E onde há egoísmo não há lugar para o amor. 

O amor conjugal implica, pois, doação e dependência, e o segredo da felicidade conjugal está em amar essa dependência. Fora disso, isto é, sem renúncia e vitória sobre o próprio eu, ninguém será feliz no casamento. 

Consortium: o vínculo indissolúvel 

Ao definir o casamento um consortium, o jurisconsulto romano acrescentou logo: omnis vitae. Aí está afirmada a indissolubilidade do vínculo conjugal. 

Companheiros inseparáveis, ligados pelo amor, partilhando da mesma sorte – e por isso mesmo sendo chamados consortes – os esposos tomam sobre si o suave jugo que há de durar por toda a existência, tornando-os unidos nas alegrias e nos sofrimentos. 

Essa perenidade indestrutível do vínculo matrimonial é também um impositivo da natureza e, por conseguinte, de Deus, autor da natureza. Reclama-a o bem da prole, a educação dos filhos resultante do constante esforço e sobretudo da afeição e do carinho dos pais. Perante este fim superior, deve inclinar-se a vontade dos cônjuges, aceitando as limitações que, longe de os diminuir, os engrandece ainda mais tanto no amor como sacrifício. 

Os homens são livres de escolher entre o estado matrimonial e o celibatário, de querer ou não o casamento, mas nunca de querer o casamento sem ao mesmo tempo admitir as condições e consequências exigidas pela ordem natural, cuja violação implica aviltamento da dignidade humana. E entre estas exigências está a indissolubilidade. 

Mas no caso de amor malogrado? E quando os cônjuges não conseguem encontrar no casamento a felicidade a que aspiravam? 

Eis o terreno onde são mais fundas as divergências entre os defensores do casamento indissolúvel e os divorcistas, estes invocando o "direito à felicidade". 

Tudo depende da concepção dos fins do homem, de uma filosofia da vida. Os adeptos do divórcio não veem, acima da felicidade neste mundo, outra meta para o homem, enquanto seus adversários racionam com a mente voltada para valores mais altos. O divórcio resulta de uma posição nitidamente individualista, ao passo que os sustentadores do casamento indissolúvel têm em vista, mais do que o bem particular do indivíduo, a estabilidade da família, o interesse da sociedade e sobretudo o bem da prole. 

Aliás, o direito à felicidade não é absoluto. Há, na vida, casos de infelicidade irremediável, como nos mostram certas enfermidades ou as consequências de certos desastres. A questão está em saber fazer do sofrimento uma escalada da verdadeira felicidade, mas o que não se pode é, para atender ao bem de alguns poucos, ir contra o bem de toda a sociedade. Não cabe aqui analisar os efeitos do divórcio, neste sentido, já suficientemente estudados por tantos sociólogos e juristas, fazendo ver o estado de "anomia" social produzido pelo divórcio. 

De mais a mais, como já foi visto, a felicidade no casamento não importa ausência de sofrimento a até requer dos cônjuges muita capacidade de sacrifício. É preciso que eles saibam sofrer para poderem ser felizes e só o serão desde que, em meio às contradições encontradas na vida conjugal, se sirvam destas não para criar uma hostilidade recíproca, mas para fortalecer o seu amor. 

Consócio perene. "Por toda a vida", no dizer de Modestino. E a não ser assim - mas dentro dos postulados da concepção individualista e materialista da vida -, não seria mais consequente abolir a própria instituição do casamento? 

É o que nos faz ver muito bem o parlamentar brasileiro Daniel Faraco, em artigo publicado no Correio do Povo de Porto Alegre (30-X-1970):

"A grande questão que afinal se coloca é a do sentido do casamento e da hierarquia dos valores na qual ele se insere.  
Se o casamento tem sentido exclusiva ou predominantemente individualista, cumpre então e desde logo questionar a sua própria razão de existir. Se os interesses dos cônjuges ocupam o primeiro lugar e tudo mais se lhe subordina, por que motivo se há de disfarçar essa situação com a capa matrimonial? Bem mais lógica é a posição - que alguns proclamam sem rebuços - de abolir o casamento como velharia inútil. Quando muito, para conhecimento dos amigos, caberia una comunicação declaratória de endereço, caso se possa prever que a ligação durará algum tempo e importará em residência comum.  
Mas se o sentido do casamento é, como não pode deixar de ser, predominantemente social, estão os interesses dos cônjuges devem subordinar-se ao bem comum, e não vice-versa.  
De fato, a estabilidade do matrimônio é um imperativo que decorre de seu papel na vida social. Sem o casamento estável, a sociedade decai em conteúdo humano e se esvazia do cimento moral, que a distingue da simples multidão. Há uma ordem natural que dirige o casamento no sentido dos filhos e coloca os interesses e a felicidade destes acima dos interesses e da felicidade dos pais. Quando isso não ocorre, caracteriza-se uma situação de desordem que atinge os próprios fundamentos da sociedade e os subverte". 

Eis toda a questão. Ou o sentido plenamente comunitário do casamento, daí resultando a sua indissolubilidade; ou o sentido individualista, que destrói os alicerces da instituição matrimonial. 

Communicatio: a sacralidade do matrimônio 

Sacrifício: de sacrum facere. Os sofrimentos em comum da vida matrimonial têm o sentido de uma oblação. E o matrimonio realiza-se na sua plenitude, tornando-se fonte fecunda e manancial inesgotável de verdadeira felicidade, quando os sacrifícios que exige são oferecidos a Deus, na comum convicção dos cônjuges de que ao homem não cabe separar o que Deus uniu. 

Esse sentido mais profundo do casamento encontra-se nos povos primitivos, e, quando foi expresso na limpidez do conceito de Modestino, o Cristianismo não havia ainda transformado todo o Império Romano e conquistado a Europa, mas a sociedade pagã daquele tempo, com toda a sua degenerescência moral e os seus vícios, estava ainda assim impregnada de sacralidade. Divinizava as forças da natureza, “tudo era Deus exceto Deus” como disse Bossuet. E a consciência humana não adormecera de todo - "a alma humana é naturalmente cristã", dirá Tertuliano -, razão pela qual se reconhecia e proclamava o caráter sagrado do matrimônio.

Foi preciso chegar ao neopaganismo moderno - muito mais perverso do que o paganismo dos antigos gentios, porque este era o de uma sociedade que viveu sem conhecer o Cristianismo nem a Revelação mosaica, mas assim mesmo tinha o senso do sagrado e respeitava a lei natural ao passo que o neopaganismo de hoje procede de uma rejeição da mensagem cristã- para que ao casamento e à família se negassem os seus fundamentos religiosos.


O divórcio, em nossos dias, é expressão do individualismo, ou seja, do humanismo naturalista do homem moderno, que se manifesta em duas etapas: o individualismo propriamente dito e o coletivismo, este um resultado e uma continuação daquele, sendo, no fundo, o individualismo levado ao extremo numa cosmovisão materialista da vida. Um tal humanismo é consequência da secularização ou dessacralização das mentalidades e das instituições, que teve início no outono da Idade Média - para empregar a expressão de Huizinga - e no dealbar do Renascimento pagão paralelamente ao do protestantismo. A dessacralização penetra hoje na própria Igreja, como os Papas deste século têm advertido, dando-se até o caso insólito de católicos - quando não sacerdotes! - virem a público tendo a desfaçatez de preconizar o divórcio e postergando assim o caráter sagrado do matrimônio.

A comunicação do direito divino e do direito humano referida Modestino corresponde à instituição do casamento por Deus, ao criar o homem e dar-lhe uma companheira "para que não estivesse só" (Gen. 3, 18), e à elevação do matrimonio a sacramento, na Nova Lei, por Cristo, cuja presença nas bodas de Caná, aí fazendo o primeiro milagre relatado no Evangelho, é bastante significativa.

Essa comunicação entre o divino e o humano está nos sacrifícios oferecidos pelos cônjuges a Deus -sendo que estes, a seu modo, se consagram a Deus para cumprir a sua missão - e nas graças dadas por Deus, como sacramento do matrimônio, aos que o recebem e podem assim santificar-se no estado que abraçaram.

Assim, do plano do direito natural, acessível aos que não tiveram conhecimento da Revelação (Rom. 2, 14), passamos para o plano do direito cristão.

Instituição natural e divina, foi o casamento caindo paulatinamente, entre certos povos, num tal estado de degradação a ponto de não mais se reconhecer, sob as formas grosseiras da poligamia e da poliandria, aquela admirável unidade social feita de vida e de sentimentos entre os cônjuges, os pais e os filhos. A mulher estava reduzida à escravidão e transformada em objeto de prazer, a autoridade do chefe era tão excessiva que rompia a igualdade natural dos esposos, tendo o pai e o marido, por vezes, o direito de vida e de morte sobre seus subalternos, carecendo a elevação dos filhos do ambiente de elevação moral que naturalmente pressupõe.

O cristianismo restabeleceu a primitiva dignidade do casamento, assegurando os direitos do homem e da mulher, opondo à licenciosidade dos costumes conjugais a lei da fidelidade recíproca, transformando o despotismo arbitrário do chefe de família na autoridade hierárquica dos pais e do marido, oferecendo, enfim, para o cumprimento dos deveres relativos à educação dos filhos, os meios indispensáveis, de ordem natural e sobrenatural.

Mais ainda. Se a família já tinha um caráter religioso, como o demonstra o exemplo dos gregos e dos romanos como culto dos lares e dos antepassados, depois de Jesus Cristo vir ao mundo e consumar a obra da Redenção, o ato constitutivo do matrimônio foi engrandecido pelo sacramento, de tal maneira que um não pode existir sem o outro, nas perspectivas do direito cristão. Daí a expressão usual entre os teólogos e canonistas para designar o vínculo matrimonial: contrato-sacramento. Note-se o traço de união, como a indicar que o sacramento não é um acréscimo, um elemento acidental que se justapõe ao contrato: ele afeta a essência mesma do contrato.

O cristianismo enobreceu, pois, o casamento, sacramentum magnum in Christo et in Ecclesia, no dizer de São Paulo (Ef. 5, 32). O homem e a mulher, unidos pelo matrimônio, são "dois numa só carne" (Gen. 2, 24 e Mt. 19, 6), tendendo, pela fidelidade à graça sacramental a tornarem-se um só coração e uma só alma, numa união que tem por símbolo e modelo a de Cristo com a sua Igreja.

No seu opúsculo De bono conjugali, enumera Santo Agostinho os bens do casamento cristão reproduzida por Pio XI na memorável Encíclica Casti connubii. Essa enumeração mostra-nos o direito cristão a confirmar e aperfeiçoar o direito natural. Proles, fides, sacramentum são os três bens da família constituída pelo casamento cristão. Os dois primeiros bens, prole e fidelidade conjugal, correspondem ao fim principal e aos fins secundários do matrimonio conforme a própria lei natural. E o terceiro representa o aperfeiçoamento do estado matrimonial depois da vinda de Cristo: o sacramento confere aos esposos graças especiais para uma união mais completa entre ambos, que lhes seja fonte de santificação, e para uma educação mais perfeita dos filhos, permitindo assim a melhor realização dos fins do casamento.

Vimos, pois, o contrato transfigurado no contrato-sacramento; o direito cristão cristão fortalecendo e sublimando o direito natural: a graça aperfeiçoando a natureza. 

A COMUNIDADE FAMILIAR

Sociedade natural, simples e completa, assim se nos apresenta a família como "célula social", expressão corrente e bastante sugestiva para indicar a relevância da família na sociedade civil.

Tal expressão é empregada, já se vê, por analogia metafórica, mas a analogia, no caso, é das mais procedentes. A célula é, no organismo, uma parcela natural, a última parcela em que se pode decompor um todo orgânico. Constitui um centro relativamente autônomo de vida, imperfeito porém, porque, para subsistir, requer energias vitais que circulam por todo o organismo. Mas estas energias, por sua vez, resultam do trabalho das células, assimilando os elementos necessários para a subsistência do ser vivo. Assim, cada uma das células é fonte da vida e da saúde para todo o corpo.

Sendo a sociedade um grande organismo moral, pode-se chamar a família de célula desse organismo. A família assegura à sociedade a continuidade orgânica, pela perpetuação do gênero humano, e assegura-lhe a continuidade moral, pela educação da prole.

Como vemos, a analogia da família com a célula pressupõe uma outra analogia, muito usual entre os sociólogos, a do todo social com o orgânico. Podemos admitir este paralelo sem cair no erro do organicismo e sem perder de vista que na sociedade há uma unidade de ordem e não unidade substancial.

Como a célula, na ordem biológica, é a unidade fundamental, parte integrante de um organismo, e última parcela de vida, assim também a família, na sociedade global, é a unidade natural e simples que constitui o núcleo fundamental da mesma. Natural, porque corresponde a uma inclinação natural do ser humano. Simples, porque não se pode decompor em outras sociedades menores. A sociedade conjugal é a sociedade de pais e filhos formam uma só comunidade. Além disso, a sociedade é simples como nenhuma outra sociedade o pode ser, pois nela os "sócios" vivem não apenas associados, mas identificados por uma comunidade de vida tal que, mesmo biologicamente e sobretudo afetivamente, os membros formam a mais perfeita unidade social.

Cabe a propósito evocar a distinção feita por Tönnies entre "sociedade" (Gesellschaft) e "comunidade" (Gemeinschaft). A primeira resulta de vínculos de tipo contratual. A comunidade implica uma vivência social mais profunda, sendo este o caso da família e também da nação, que é uma grande família histórica.

Voltando ao confronto da família com a célula, cumpre acrescentar que a célula não passa de uma parte do organismo vivo, enquanto a família é um organismo completo, visando à perfeição social do homem na sua totalidade, isto é, todos os bens da natureza humana, bens que a sociedade deve ajudar cada indivíduo a conseguir na ordem física, intelectual e moral. Por isso mesmo, a autonomia da família como centro de atividade social é muito maior que a da célula como centro de atividade biológica, daí resultando os direitos naturais da família em face do Estado. Inserindo-se no plano do espiritual e do temporal, a família ordena o homem para o bem de sua natureza de maneira muito mais completa que o Estado, cuja ação se faz sentir somente na ordem temporal. Donde o dizer o Código Social de Malines: "a família é a fonte em que se recebe a vida, a primeira escola em que se aprende a pensar, o primeiro templo em que se aprende a rezar". As funções sociais da família aí se acham devidamente discriminadas: função biológica, função pedagógica, função moral e religiosa. A família abrange o homem total, corpo e alma, como não faz nem pode fazer o Estado.

À família cabem ainda uma função econômica e uma função política. Pela primeira, ela se nos apresenta como unidade de produção e de consumo. No regime artesanal e na pequena indústria que precedeu o moderno capitalismo industrial, sua importância enquanto unidade de produção era muito maior, começando a declinar até desaparecer por completo após o aparecimento da máquina. Continua, porém, a desempenhar papel primordial enquanto unidade de consumo. Da mesma forma, a função política da família tem deixado de ser exercida nas condições e circunstâncias dos povos modernos, desde que o individualismo liberal começou a desagregar as sociedades, preparando caminho para uma centralização estatal e para o totalitarismo.

A missão do Estado é proporcionar as condições externas para o bem temporal dos indivíduos reunidos em sociedade. A família atua muito mais eficaz e profundamente sobre cada um de nós, pois  lhe compete promover o pleno desenvolvimento da personalidade e integrar o homem na vida social, proporcionando-lhe também os elementos básicos imprescindíveis para a sua formação cívica.

Nesse sentido, tem a família uma sociabilidade muito mais perfeita que o Estado. Se a este se aplica o conceito aristotélico tomista de communitas perfecta, é no concernente à suficiência dos bens necessários para a vida. Aristóteles tinha diante si o exemplo da cidade grega - a polis - que, além de poder realizar por si mesma o seu próprio fim e de atender às próprias necessidades com recursos próprios, vinha completar os agrupamentos menores nela reunidos, proporcionando-lhes condições necessárias à manutenção da existência e ao bem-estar de todos. Tratava-se da ideia de "autarquia" segundo a concepção do Estagirita,isto é, de uma sociedade que subsiste por si mesma com governo próprio e suficiência de recursos.

O Estado é, pois, sociedade perfeita no sentido de completar a tendência natural do homem para a vida em sociedade. A sociabilidade aí está plenamente realizada, donde a expressão communitas perfecta. Quanto à perfeição dos vínculos sociais, porém, isto é, a sua força unitiva, o entrosamento dos membros da comunidade, a coesão profunda do grupo então a família é indiscutivelmente mais perfeita que a sociedade política em qualquer de suas formas, abrangendo a dos Estados na atualidade.

Para concluir, nada melhor do que estas palavras do Santo Padre João Paulo II, realçando o caráter comunitário da família, em discurso aos participantes do Congresso sobre a Pastoral da Família, reunido em Roma, palavras pronunciadas a 5 de maio do corrente ano [1979] e transcritas no Osservatore Romano: 

"Num mundo em que parece diminuir a função basilar de muitas instituições, e a qualidade da vida sobretudo urbana se deteriora de modo impressionante, a família pode e deve tornar-se um lugar de serenidade autêntica e de crescimento harmonioso; e isto, não para se isolar em forma de auto-suficiência orgulhosa, mas para oferecer ao mundo um testemunho luminoso de quanto é possível a recuperação e a promoção integral do homem, se esta tem como ponto de partida e de referência a sã vitalidade da célula primária do tecido civil e eclesial 
É necessário, por conseguinte, que a família cristã se transforme cada vez mais numa comunidade de amor, tal que permita superar, na fidelidade e na concórdia, as inevitáveis provas que derivam das preocupações quotidianas; numa comunidade de vida, para dar origem e cultivar alegremente novas e preciosas existências humanas à imagem de Deus; numa comunidade de graça, que faça constantemente de Nosso Senhor Jesus Cristo o próprio centro de gravidade e o próprio ponto de força, de modo que fecunde os compromissos de cada um e adquira sempre novo vigor no caminho de todos os dias".
O cunho comunitário da família transcende, pois, os limites da sociedade civil e do temporal, protegendo-se na ordem espiritual e na constituição da Igreja. A sociedade civil é uma reunião de famílias e não de indivíduos soltos. E a Igreja, sendo, enquanto Corpo Místico, união das almas na comunhão dos santos, institucionalmente considerada tem nas famílias as suas verdadeiras comunidades de base. 

Finalizando, recordemos com filial acatamento mais estas palavras do Santo Padre João Paulo II, em Jasna Gora, quando da visita do Sumo Pontífice à sua pátria polonesa: "A família é a primeira e fundamental comunidade humana".

Obra de Esteban Murillo (1665-1670), retratando o casamento entre a Santíssima Virgem Maria e São José


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Economia liberal X Economia católica

Breve comparação feita pelo político e filósofo espanhol Juan Vázquez de Mella y Fanjul, retirada e traduzida do discurso pronunciado em 23 de abril de 1903 no Teatro Trívoli de Barcelona*

 





Juan Vázquez de Mella y Fanjul

O que resta em pé daquela economia miserável que só serviu para produzir catástrofes? Essa economia diz que o capital não é mais que o produto destinado a uma nova produção, quer dizer, um efeito destinado a ser causa que, portanto, necessita de uma causa anterior, que não podia ser ele mesmo, posto que ninguém se dá o ser que não tem; o que prova, ademais, que há riqueza que constitui capital que não é produto, porque não é obra do trabalho dos homens, mas da natureza.

Essa economia diz que o trabalho é uma mercadoria que se regula, como as demais, pela lei da oferta e da demanda; e a economia social católica contesta: não; o trabalho, como exercício da atividade de uma pessoa, não é uma simples força mecânica, é uma obra humana que, como todas, deve ser regulada pela lei moral e jurídica, que está acima de todas as regras econômicas. 

Essa economia diz que o contrato de trabalho é assunto exclusivamente privado, que só interessa aos contratantes, e a economia católica contesta: não; o contrato de trabalho é diretamente social por seus resultados, que podem transcender à ordem pública e social, e a hierarquia de poderes da sociedade - e não somente o Estado, que é o mais alto, mas não o único poder - tem, em certos casos, o dever de regulá-lo. 

A economia liberal diz que o principal problema é o da produção de riqueza, e a economia católica contesta: não; o principal problema não consiste em produzir muito, mas em repartir bem, e por isso a produção é um meio e a partilha equitativa um fim, e é inverter a ordem subordinar o fim ao meio, ao invés do meio ao fim.

A economia liberal diz: existem leis econômicas naturais, como as da oferta e da demanda, e nas quais, não intervindo o Estado para alterá-las, deduz-se de si mesmas a harmonia de todos os interesses. A economia social católica contesta: não existem leis naturais que imperam na ordem econômica à semelhança das que regem o mundo material, porque a ordem econômica, como tudo o que se refere ao homem, está subordinada à moral, que não se cumpre fatal, mas livremente; e não se podem harmonizar os interesses, se antes não harmonizam-se as paixões que os impulsionam; e a oferta e demanda não é, tampouco, uma lei natural, porque nem sequer é lei, já que é uma relação perpetuamente variável, como são seus extremos, e a lei encontra-se na relação entre as causas que produzem as mudanças, e não no resultado.

A economia liberal diz: a liberdade econômica é a panaceia de todos os males, e a livre concorrência deve ser a lei suprema da ordem econômica. E a economia social católica contesta: não; o circo da livre concorrência, onde lutam os atletas com os anêmicos, é o combate no qual perecem os débeis esmagados pelos fortes. Para que essa contenda não seja injusta, é necessário que os combatentes lutem com paridade de armas e, para isso, é preciso que os indivíduos não fiquem dispersos e desagregados, mas unidos e agrupados em corporações e na classe, para que sejam como suas cidadelas e muralhas protetoras, para que a força de alguns e o poder do Estado não os esmague. 

A antiga economia liberal diz, referindo-se ao Estado em suas relações com a ordem econômica: deixai fazer, deixai passar. E a economia católica contesta: não; essa regra não se praticou jamais na História. Os mesmos que a proclamaram nunca a praticaram; e é um erro frequente crer nisso, no qual incorreram muitos e, entre eles, sábios publicistas católicos, por não terem reparado que a antiga sociedade cristã estava organizada espontaneamente, e não pelo Estado. Aquela sociedade havia estabelecido sua ordem econômica não a priori e conforme um plano idealista, mas segundo suas necessidades e condições; e, quando o individualismo encontrou-se com uma sociedade organizada de acordo com princípios contrários aos seus, proclamou a tese de que não era lícito intervir na ordem econômica, o que significou precisamente intervir para derrubar o que existia por meio de uma intervenção negativa, que consistiu em romper um a um todos os vínculos da hierarquia de classes e corporações que lenta e trabalhosamente haviam levantado os séculos e as gerações crentes. Qual intervenção é maior que romper, uma a uma, as articulações do corpo social e desagregá-lo e reduzi-lo a átomos dispersos, para dar-lhe, apesar de si mesmo, a liberdade da poeira, de modo que ele se mova em todas as direções de acordo com os ventos que sopram no topo do Estado?

Cartão postal baseado na obra L'Angélus, de Jean-François Millet (1857-59), retrata dois camponeses parando os trabalhos para rezar a famosa oração da Cristandade. O capitalismo afastou o homem do contato com Deus e com a sua família, fazendo-o trabalhar mais, alterando seus objetivos: não mais o acúmulo das riquezas eternas, mas da riqueza terrena.

*Alguns tempos verbais foram alterados, assim como a ordem de poucas orações, para dar maior inteligibilidade ao texto.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Instrução espiritual acerca da morte

Escrita por São Thomas More enquanto estava na prisão na Torre de Londres, em 1534 

Capela dos Crânios em Czermna, Polônia (1776)

Quem salvar a sua vida de um modo que ofenda a Deus, muito em breve chegará a odiá-la. Pois se dessa forma salvares a tua vida, aborrecê-la-á com tal ódio no dia seguinte que te entristecerá que a morte não te tenha levado um dia antes. Que hás de morrer, é algo de que sem dúvida alguma te lembrarás: mas como ou quando, não o sabes de modo algum. Razão tens para temer, não seja que depois desses adiamentos se sigam os tormentos sem fim no inferno, onde os homens desejarão morrer e a morte fugirá deles [cfr. Apoc 9, 6]; ao passo que, ao sofrimento da morte que tanto aborreces, ter-se-iam seguido sem nenhuma dúvida as alegrias do céu. 

Que insensatez é esta de pretender evitar a morte temporal para cair numa morte que dura para sempre? E, para cúmulo, não escaparás da temporal senão por algum tempo: é mero adiamento. Por acaso pensas que, se escapares agora da morte, já a terás vencido para sempre? Ou julgas talvez que morrerás, sim, noutro momento, mas sem dor? Pelo contrário, pode ser que te aconteça aquilo que aconteceu com aquele homem rico que prometia a si mesmo uma vida muito longa; Cristo recordou-lhe: “Insensato, nesta mesma noite virão buscar a tua vida” [cfr. Lc 12, 20]. 

Além disso, sabes com certeza que um dia terás de morrer, e também que não podes ter uma vida longuíssima, pois a vida do homem sobre a terra é muito breve. Finalmente, suponho que não duvidas de que, quando chegar o momento em que estiveres doente e acamado, começarás a sentir as angústias da morte que se aproxima e desejarás que, pela salvação da tua alma, tivesses padecido uma morte cruel e terrível muito antes. Não há razão, portanto, para temeres tão desesperadamente que aconteça aquilo que, como sabes muito bem, um pouco mais tarde desejarias que tivesse acontecido antes. 

Os que padecem pela vontade de Deus, que recomendem as suas almas ao seu fiel Criador [cfr; 1 Pe 4, 19]. Queridíssimos, quando Deus vos provar com o fogo das tribulações, não estranheis, como se vos acontecesse uma coisa muito extraordinária; antes, alegrai-vos por participardes da paixão de Cristo, para que, quando se revelar a sua glória, vós vos alegreis também com Ele cheios de júbilo [cfr; 1 Pe 4, 12-13]. Deveriam envergonhar-se os homens bons de serem mais timoratos em fazer o bem do que os homens maus em fazer o mal. Não seria impossível ouvir um ladrão dizer sem hesitação que seria um covarde quem vacilasse em sofrer meia hora pendurado, se depois pudesse viver sete anos de prazer e desafogo. E que vergonha seria então para um homem cristão perder a vida e a felicidade eternas, só para não padecer uma morte rápida antes do tempo! Sabendo, além disso, e muito bem, que há de sofrê-la de uma forma ou de outra, e dentro em pouco, e que, a não ser que se arrependa a tempo, imediatamente depois da sua morte temporal cairá na morte eterna, muito mais horrível do que qualquer outra morte. 

Se o ser humano pudesse ver um desses demônios que em grande número nos vigiam diariamente, desejando atormentar-nos para sempre no inferno, bastaria o medo desse único diabo para não dar nenhuma importância a todas as ameaças mais terríveis que se possam imaginar. E muito menos lhe importariam, se pudesse contemplar os céus abertos e Jesus ali sentado, como o viu o bem-aventurado Estevão [cfr. At 7, 55-56] 

O vosso inimigo, o diabo, anda girando ao vosso redor como um leão que ruge, em busca de uma presa que devorar [cfr. 1 Pe 5, 8]. Bernardo [Sermão XIII, sobre o Sl 90] diz: Agradeço humildemente ao grande leão da tribo de Judá; bem pode rugir esse outro leão, mas não pode morder-me. Por mais que nos ameace, não sejamos tão covardes que só pelos seus rugidos caiamos prostrados ao chão. Seria de verdade um animal e desprovido de inteligência que fosse tão pusilânime que se entregasse só por medo, ou que ficasse tão desconcertado com a vã imaginação das dores que talvez tenha de sofrer que, ao simples toque da trombeta, ainda antes de começar a batalha, já estivesse vencido por completo. Porque ainda não resististes até derramar o sangue [cfr. Hebr 12, 4], diz aquele valente capitão que bem sabia que os rugidos desse leão não eram coisa de que se chegasse a morrer. E outro diz: Resisti ao diabo e fugirá de vós [cfr. Ti 4, 7]. Resisti-lhe firmes na fé [cfr. 1 Pe 5, 9]. 

Aqueles que, tendo abandonado a esperança em Deus, vão em busca de auxílio nos homens, hão de perder-se, como advertiu Isaías (cap. 31). Assim pereceu o rei Saul que, por não ter recebido imediatamente o que era do seu agrado, impaciente, murmurando e desesperando de Deus, acabou por buscar o conselho de uma feiticeira, ele que havia decretado com edito público que todas as feiticeiras deviam ser castigadas [cfr. 1 Re 28, 2-25]. 

Mensagem de Natal

For God So Loved the World , de Simon Dewey "Não havia lugar para eles" (Lc. 2, 7). É isso que lemos no Evangelho, tratando-se do ...